Confiance Medical

Entendendo os problemas da videocirurgia no Brasil em números

O caminho para a democratização dos procedimentos por vídeo.

Em maio de 2021, nós da Confiance Medical resolvemos buscar dados que nos respondessem em números aquilo que todos nós do meio médico-hospitalar já sabíamos: a videocirurgia no Brasil ainda é para poucos pacientes e cirurgiões. Mas quão longe estamos do mundo ideal? 

Historicamente no Brasil realizamos poucas abordagens cirúrgicas abdominais por videocirurgia em relação a procedimentos cirúrgicos abertos (com mais cicatriz). E, durante a pandemia, com as necessárias interrupções das cirurgias eletivas, esse cenário se agravou muito. Os custos sociais e econômicos desse período estão sendo enormes e se arrastarão por algum tempo. As cirurgias eletivas adiadas estão virando emergenciais. A complexidade cirúrgica dos pacientes de hoje aumentou muito, pois eles chegam para operar em estados mais críticos do que deveriam chegar caso tivessem sido operados meses ou dezenas de meses antes. Tudo isso eleva o risco e, consequentemente, gera mais perdas de pacientes.

A capacidade operatória por vídeo do país já não era suficiente para dar conta da demanda cirúrgica normal, com a pandemia esse desafio virou uma bola de neve crescente que precisa ser combatida. E aqui também mora o fantasma da desigualdade, que faz com que pacientes com planos de saúde privados tenham mais acesso às videocirurgias do que aqueles que são atendidos pelo SUS.

Para entender o tamanho do problema, sabíamos que precisaríamos de dados e de profissionais qualificados para nos ajudar a tratá-los e interpretá-los. Então buscamos na Coppead/UFRJ a competência complementar necessária para iniciarmos essa missão. Olhamos apenas para o setor público, pois haviam os dados disponíveis do departamento de informática do SUS, o DATASUS e suas belas ferramentas, como o TABNET, um tabulador genérico de domínio público que permite organizar livremente dados do Sistema Único de Saúde e SIGTAB, Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS que nos ajudaram a construir nossa base de análise.  Utilizamos também dados oficiais do IBGE para construção do cenário atual no Brasil.

Para nos ajudar a traçar um cenário comparativo, utilizamos dados de 3 países integrantes da OCDE, e nossos critérios de escolhas foram bem específicos: (i) escolhemos a Alemanha por ser uma das nações mais desenvolvidas do mundo; (ii) o Reino Unido por possuir um sistema central de saúde, que inclusive inspirou o nosso SUS; (iii) a Austrália que é um país com dimensões continentais, com desafios logísticos similares aos nossos.

Buscamos a melhor representatividade possível dentro dos dados disponíveis em nossa análise, tentando estatisticamente eliminar ruídos e sujeira nesses dados, escolhemos os procedimentos cirúrgicos por vídeo mais comuns, como apendicectomias, colecistectomias, hernioplastias inguinais, prostatectomias, histerectomias e as cirurgias bariátricas.  

Com a análise que fizemos, respeitando os claros limites metodológicos, podemos inferir que:

  • Em 2017 Alemanha realizou 72,9% dessas cirurgias selecionadas, por vídeo. O Reino Unido fez 74,5% e o Brasil fez apenas 19,4% dessas cirurgias por vídeo. O restante foram cirurgias “abertas” que geram mais cicatrizes.

  • Em 2018 a Alemanha fez 83,8% das apendicectomias por vídeo. O Reino Unido fez 80%. O Brasil fez apenas 5,4%.

  • Em 2017 a Austrália fez 94,2% das colecistectomias por vídeo. O Reino Unido fez 92,4%. A Alemanha fez 82,9%. O Brasil fez incríveis 40,1%. Confirmamos aqui que nem o procedimento mais performado por vídeo no Brasil, atinge níveis perto dos demais países. 
       
  • Em 2020 apenas no SUS, mais de 50.000 procedimentos por vídeo foram cancelados ou adiados. Hoje esse número é potencialmente muito maior.

Não se discute mais os benefícios da videocirurgia aos pacientes. Mas está na hora dos procedimentos por vídeo mostrarem que podem ser bons também ao sistema de saúde como um todo. O giro de leito proporcionado pela alta mais rápida é um poderoso aliado dos gestores hospitalares para acelerarem o ataque às suas filas cirúrgicas.

E o que o mercado não fez nos últimos 20 anos, terá de fazer nos próximos 5. Universidades públicas e privadas precisam disponibilizar o conhecimento e a infraestrutura necessária para que a videocirurgia esteja presente na formação de residência médica de todas especialidades cirúrgicas que possa se utilizar de acessos minimamente invasivos. Eles são mais eficientes, geram menor custo financeiro e social. Precisam ser mais difundidos e incentivados. Do lado das empresas, vamos aumentar os apoios aos mutirões, cursos e ações médica que envolvam atendimentos aos mais necessitados e que possuam caráter educacional, para que o conhecimento de cirurgiões, instrumentadores, enfermeiros, engenheiros e técnicos de todos os setores, evoluam seus aprendizados e possam colaborar.

A atual pandemia não pode ser só um desastre, dela precisamos extrair aprendizados e evoluções. Se conseguirmos antecipar o acesso à videocirurgia para nossa população, de forma acelerada nos próximos 5 anos, deixaremos um robusto legado para nossos filhos e netos: procedimentos menos agressivos como padrão para todos os brasileiros.

Precisamos de mais iniciativas do que nunca. Como você pode ajudar?

#PorUmMundoSemCicatriz

Guarany Guimarães

Diretor de Mercado & Co-Fundador – Confiance Medical

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